até
1992 | Conjuntura Brasileira

Câmara setorial da indústria automobilística
CONTEXTO
Um velho círculo vicioso rondava o Brasil. Menos salário, menos consumo, menos produção e mais desemprego. Um trabalhador demorava 22 meses, ou quase dois anos, para arrumar um novo emprego depois de ter sido dispensado do trabalho anterior, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). O total de desempregados na Grande São Paulo alcançava, em maio, a incrível marca de 1,220 milhão de trabalhadores: 61% a mais do que os 750 mil desempregados de março de 1990, quando Collor de Mello assumira a Presidência da República.

Seguindo o caminho inverso do emprego, os salários têm despencado. Mo mês de abril, em média, os salários compravam apenas 50% do que compravam no ano de 1985. Essa situação, comum a todos os assalariados brasileiros, não era muito diferente para os metalúrgicos do ABC. Entretanto, um acordo assinado em Brasília, no dia 26 de março de 1992, entre governo, empresários do setor automotivo e os sindicatos de Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Santo André e Betim MG, todos da Central Única dos trabalhadores (CUT), apontou novos caminhos para a categoria.

Em um acordo inédito - viável em função da ousadia dos metalúrgicos - os preços dos automóveis foram reduzidos em 22%, parte pela redução dos impostos tanto em nível federal como estadual e parte pela redução na margem de lucro das montadoras e revendedoras. Essa redução mudou radicalmente o quadro que se apresentava para a categoria. Havia, naquele dia, nada menos que 30 mil carros nos pátios. Afinal, as empresas haviam vendido apenas 29.200 automóveis naqueles trinta dias. Um mês depois, no final de abril, as vendas somavam 70.800 unidades, correspondendo a um acréscimo de 142,5% sobre as vendas de maio. Em maio, a produção das montadoras foi de 84.716 veículos, representando 20% de acréscimo sobre o mês de abril. A Ford, por exemplo, havia programado férias coletivas para boa parte dos seus 9.000 funcionários e voltou atrás no meio do caminho, confirmando a tese de que mais consumo garante mais produção e é a melhor defesa para o emprego.

O acordo, além de garantir a manutenção do nível de emprego e de salário da categoria durante os três meses originais de sua vigência, fez outra coisa ainda mais importante. Mostrou que o caminho para a recuperação da economia não está na política austera de contenção do consumo aplicada pelo ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira. Afinal, o que garantiu o emprego e o salário foi justamente o oposto. Ou seja, o aumento nas vendas do setor. Muitas foram as críticas, inclusive dentro da CUT, ao acordo negociado em Brasília. Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, tem respondido muito simplesmente: "É um crime discutir só o salário do mês, porque vem a inflação e rouba o salário e vem o facão e rouba o emprego. As propostas negociadas em Brasília são um avanço porque garantem, ao mesmo tempo, o emprego e o salário dos metalúrgicos".

O dia 23 de abril de 1992, quando a via Anchieta foi tomada por 18 mil metalúrgicos durante mais de quatro horas, significou o apoio da categoria ao caminho de luta escolhido e definido não apenas por Vicentinho, mas por toda a diretoria do Sindicato e aprovado pela assembléia conjunta dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema. e de Santo André. No mês de junho começaram as discussões de renovação do acordo. Enquanto governo federal e empresários, tanto das montadoras como das revendedoras, estavam muito dispostos a renovar o acordo, os metalúrgicos colocavam duas condições: definição de uma política de consórcios e mecanismos de financiamento acessíveis à população para a compra de veículos novos. Além disso, a manutenção da política de reajuste mensal dos salários pela média da inflação, garantia no emprego e aumento real estavam na lista de reivindicações da qual ninguém abriria mão.

Renovado ou não, o acordo tem uma faceta que ninguém mais rouba da categoria metalúrgica: a intervenção na própria economia do país na contracorrente do desemprego e do arrocho que Collor estava impondo à classe trabalhadora. (Denise Neumann)

Fonte: Revista Ligação nº 6, ano 3, maio/junho/julho de 1992, pág. 6 e 7
Sindicato dos Metalúrgicos de S. B. do Campo e Diadema
Imprimir contexto
REPERCUSSÃO NA MÍDIA
Clique nas imagens para ampliar
IMPRENSA SINDICAL
DEPOIMENTOS
Clique nas fotos para ler os depoimentos:

Luiz Marinho

Vicente Paulo da Silva

Paulo Vanucchi
CAMPANHA SALARIAL
Veja o que aconteceu na Campanha Salarial em 1992
MANDATOS
Conheça diretores e cargos entre 1990 e 1993.
© Copyright 2009, ABC de Luta! Memória dos Metalúrgicos do ABC - Todos os direitos reservados

Mapa do Site Fale Conosco Créditos Política de Privacidade

smabc.org.br