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1986 | Conjuntura Brasileira

Sarney assume a presidência e lança o Plano Cruzado
CONTEXTO

Plano Cruzado derruba a inflação e governo Sarney desfruta de euforia política nacional.

A inflação vem subindo mês a mês (em janeiro supera a marca mensal de 17% e a anual de 250%) e cai depressa a confiança otimista que a população dedicara no novo governo civil desde a campanha de Tancredo Neves. Nas eleições municipais de 1985, o PMDB e o PFL já tinham recebido recados duros do eleitorado. É preciso, para o governo, reverter rapidamente a situação.

Estão em curso experiências internacionais de sucesso na derrubada rápida da inflação, sobretudo em Israel e na Argentina. Nesses países, adotara-se o diagnóstico de que o motor da inflação era a "inércia", tese que vem sendo defendida por economistas do PMDB, oriundos da PUC-RJ e da Unicamp. Segundo essa tese, os preços sobem num mês porque houve aumento generalizado no mês anterior, e assim sucessivamente, com todos os setores (renda, preços, impostos, salários) buscando se reajustar para manter seu valor real. Ela se auto-alimenta.

Como receituário, aqueles dois países se valeram do congelamento de preços, para estancar os repasses automáticos, e da mudança de moeda, para apagar a "memória inflacionária". Na Argentina, que também inaugurara recentemente o governo civil de Raul Alfonsín, o sucesso do Plano Austral fora imediato, com ganhos políticos enormes para o presidente.

Políticos e economistas do PMDB namoram cada vez mais firmemente com a idéia de um plano desse tipo - que, além do mais, poderia, segundo acreditam, promover o início de um processo virtuoso de distribuição de renda e de retomada do desenvolvimento.

Numa operação sigilosa, que não vazou para nenhum outro ministro, nenhum parlamentar e nenhum órgão de imprensa, e que envolveu diretamente os ministros da Fazenda (Dilson Funaro), do Planejamento (João Sayad) e do Trabalho (Almir Pazzianotto), com seus assessores diretos, e o presidente Sarney, durante dois ou três meses foi elaborado o plano de estabilização que ficaria conhecido como Plano Cruzado.

No dia 28 de fevereiro de 1986, em rede nacional de rádio e televisão, o presidente e os três ministros anunciam o Plano e explicam seu conteúdo. Os preços são congelados por um ano (alguns preços estão no seu patamar mais elevado, mas outros são pegos no contrapé, ficando abaixo do que consideram satisfatório); o cruzeiro é substituído pelo cruzado como moeda nacional e perde três zeros; extingue-se a correção monetária (reajuste automático de valores); acaba a variação automática do câmbio; os salários são corrigidos pela média real dos últimos seis meses, recebem abono de 8% e passam a dispor de reajuste sistemático ("gatilho") de 20% sempre que a inflação chegar a esse patamar, além de poderem receber aumentos reais, desde que os empregadores não os repassem aos preços; o salário mínimo ganhou, além disso, um aumento real em relação ao patamar anterior; e, no plano político, "as brasileiras e brasileiros", que é como Sarney se dirige à população, são convocados a apoiar o plano e a fiscalizar o seu cumprimento.

A população não só adere e fiscaliza como exulta de euforia com a queda da inflação e o aumento do poder de compra dos salários. A oposição (PT e PDT) chama atenção para o artificialismo do Plano e para as perdas que os salários vinham acumulando e que não são repostas integralmente pelo conversão adotada, mas não é ouvida. De todo modo, o discurso da oposição não é muito convicto, porque ela também se surpreendera com o plano e com seu impacto imediato na queda de preços, na reativação de compras, de produção e de emprego e no apoio impressionante da população, mesmo dos eleitores oposicionistas. A situação desses dois partidos é difícil, e na verdade eles buscam demarcar posição para o possível futuro fracasso do plano, como de fato ocorrerá em breve.

Logo começam a surgir os problemas que derrubarão o Cruzado. São cobrados ágios nas vendas dos produtos, mercadorias desaparecem do mercado, e as importações explodem e derrubam as reservas internacionais. Mas nada contém o ímpeto do consumo interno, que parece desrepresar anos e anos de privação e/ou desconfiar de que o bom momento será curto. O governo evita tomar medidas de ajuste muito duro e segue na postura populista de multar empresários, confiscar mercadorias e prender gerentes de lojas. O apoio político e a popularidade são muito grandes, há eleições em novembro, e ninguém no PMDB e no PFL aceita os alertas de vários economistas de dentro e de fora do governo.

Em julho, algumas medidas são tomadas para conter o crediário e restringir o consumo em alguns setores, sobretudo de viagens externas, de automóveis e de combustíveis. É o "cruzadinho", como fica conhecido o conjunto de medidas. Mesmo assim, os indicadores estruturais se deterioram rapidamente, embora a inflação permanecesse baixa e a euforia prosseguisse. As contas externas são as mais afetadas pela deterioração: os US$ 9 bilhões de reservas que Sarney herdara no começo do governo e o saldo comercial de US$ 13 bilhões obtido em 1984 vão sendo dizimados rapidamente.

Nas eleições de novembro o PMDB, principalmente, e o PFL vencem esmagadoramente as eleições. Poucos dias depois o governo lança o que passa a ser chamado de Plano Cruzado II: aumentos de tarifas e de impostos e mais restrições ao consumo. A oposição protesta e há conflitos em várias cidades. Os preços começam a ser liberados e reajustados em ritmo veloz e em escala crescente. A inflação, que ficara negativa ou por volta de 1% nos meses anteriores, em poucos meses voltará a superar a marca mensal de 20% e exigirá novo plano econômico em junho de 1987, o Plano Bresser. Com as reservas zeradas, em fevereiro de 1987 o Brasil declarará moratória da dívida externa. O país desaba da euforia à depressão.

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