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1981 | Conjuntura Brasileira

Atentado no Riocentro
CONTEXTO
Explode bomba no Riocentro durante show do 1º de maio: militares se dividem, mas pactuam compromisso pela não-apuração.

Noite de 30 de abril. Realiza-se no Rio de Janeiro, no centro de convenções Riocentro, show com artistas ligados à oposição em homenagem ao dia do trabalho. Vinte mil pessoas estão presentes.

Uma bomba explode do lado de fora, dentro de um carro (um Puma) em que estavam um sargento e um capitão do Exército, a serviço do Doi-Codi do Rio de Janeiro, ligado ao Primeiro Exército. O sargento (Guilherme Pereira do Rosário) morre e o capitão (Wilson Luís Chaves Machado) fica muito ferido. Em seguida, explode outra bomba, na casa de força do Riocentro, mas não consegue o que pretendiam os terroristas, que é apagar a luz do local e provocar pânico e mortes.

Nos meses anteriores, os atentados a bombas em bancas de revistas repetiram os de 1980 e houvera uma explosão na casa do deputado Marcelo Cerqueira (PMDB), no Rio. Mas o que se dá no Riocentro extrapola todas as proporções dos atos anteriores. Se o plano terrorista desse certo, seriam milhares de mortos, incluindo talvez pessoas de projeção. O estrago no processo de abertura teria sido grande, até porque consta que havia outras bombas que não explodiram. O "acidente de trabalho" evitou o pior.

Um certo Comando Delta assume, por telefone, a autoria do atentado. O governo abre um Inquérito Policial Militar (IPM) para realizar as apurações. O Primeiro Exército desmente a afirmação dos peritos de que havia outra bomba no carro e o capitão afirma que ele e o sargento foram vítimas de um atentado.

Todos os partidos políticos condenam o ato e prestam solidariedade a Figueiredo, que desafia os terroristas e insiste no caminho da construção da democracia. Mas os desdobramentos acabam mostrando que a convicção do presidente não era tanta a ponto de sacrificar seus colegas de corporação.

Logo no início do IPM o responsável pelas investigações, coronel Luís Antônio do Prado Ribeiro, que desenvolvia trabalho rigoroso, foi afastado. Para seu lugar foi designado o coronel Job Lorena de Sant´anna, chefe da 5ª Seção do mesmo Primeiro Exército suspeito de comandar o atentado. O resultado foi uma versão fraudulenta e absurda, de que a bomba teria sido posta no carro por grupos interessados em incriminar os militares. O relatório não demonstra essa hipótese nem menciona a bomba na casa de força. O governo aceita e referenda politicamente essa conclusão.

O episódio evidencia a tensão que se avoluma dentro das Forças Armadas desde o início da abertura, com o esvaziamento, promovido por Geisel, da linha dura e do aparato terrorista. Os integrantes desses segmentos querem recobrar seu espaço e dar contornos mais duros ao regime. Querem sobretudo poder, mas também os incomoda o desgaste dos militares: a decadência política do regime, a crise econômica e social, o crescimento da oposição e a força dos movimentos sociais tornam os ocupantes do poder alvo de críticas e ridicularizações generalizadas.

O caso do Riocentro mostra que não são somente elementos paramilitares os responsáveis pelos atos terroristas - há comandantes oficiais sustentando as operações de maior vulto. E mostra que essa ala mantém ainda muito poder, a ponto de convencer o Executivo a não aprofundar as apurações, expor a verdade e punir os responsáveis, como talvez tivesse feito Geisel.

Geisel, aliás, pressiona Figueiredo para punir os militares. Golbery fez o mesmo. Mas Figueiredo, por apego à corporação, por falta de maior visão política e talvez porque entendesse que nada mais restava ao regime do que se retirar sem alarde, aceita o compromisso com a linha dura: não apurar nem punir os culpados em troca da aceitação do cronograma político e eleitoral, que inclui eleições diretas em 1982 em todos os níveis, exceto para presidente.

Golbery não aceita a solução e pede demissão, encerrando um longo ciclo estratégico sob seu comando. Sua saída tem outro significado, além do imediato, de discordar da decisão do presidente. Expressa seu entendimento de que o plano de abertura controlada, de institucionalização de um regime político autoritário com elementos de democracia representativa, sob controle militar, traçado em 1974 junto com Geisel, não dera nem daria mais certo.

A crise econômica, o avanço da oposição e dos movimentos sociais e a desmoralização das forças militares haviam enterrado a possibilidade estratégica que ele acalentara. O paroxismo ridículo a que se chegou no Riocentro, no que ele encarna de desencontros no núcleo do poder, é suficiente para convencer Golbery de que não há mais chance.
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