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1979 | Metalúrgicos do ABC

Greve geral dos Metalúrgicos do ABC
CONTEXTO

Em assembléias realizadas em três sessões, duas na sexta-feira, dia 9, e uma no sábado, dia 10 de março de 1979, os metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema decidem rejeitar a proposta patronal e declarar greve a partir da zero hora do dia 13 de março, terça-feira. O fato de a diretoria e a Comissão de Salários terem proposto o início da greve para uma terça-feira fazia parte de uma tática. A intenção, de um lado, era a de garantir uma maior mobilização dos trabalhadores e, de outro, demonstrar à sociedade que o movimento não tinha um caráter radical.

Para o Sindicato, o início da greve na terça-feira permitiria que os trabalhadores presentes nas assembléias do final de semana fizessem o trabalho de convencimento dos seus companheiros durante a jornada de trabalho da segunda-feira. O Sindicato também acreditava que o início da greve na terça-feira mostraria à sociedade que o Sindicato não estava sendo radical, pois ainda permitia oferecer o domingo e a segunda-feira para a busca do entendimento com os empregadores.

Dentro da estratégia do Sindicato, realizou-se ainda uma assembléia às 19h do dia 12 (terça-feira), com a finalidade de confirmar a paralisação a partir das 24h daquele dia. A orientação dada nas portas das fábricas pelo Sindicato para os trabalhadores que iniciaram suas jornadas de trabalho no final da tarde era para que estes acompanhassem o resultado daquela assembléia através dos noticiários transmitidos por rádios portáteis.

Na assembléia da segunda-feira, dia 12, nem mesmo a traição da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo, que aceitou a proposta patronal sem qualquer resistência, causou desânimo nos metalúrgicos do ABC. Assim, os três sindicatos do ABC – o de São Bernardo e Diadema, o de Santo André e o de São Caetano -, além do Sindicato de Santa Bárbara d’Oeste, reafirmaram a decisão de levar os trabalhadores à paralisação de suas atividades como forma de conquistarem suas reivindicações.

Nessa mesma assembléia, os trabalhadores de São Bernardo e Diadema resolvem marcar uma nova assembléia, na sede do Sindicato, para o dia 13 de março, com o objetivo de avaliarem a paralisação, assembléia essa que na última hora foi transferida de forma improvisada para o estádio de futebol Costa e Silva, mais conhecido como Estádio de Vila Euclides.

À zero hora de 13 de março, a adesão à greve era maciça. Na Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz e Scania, a paralisação foi total, fato que, pela importância dessas fábricas, indicava que a greve que se iniciava seria um sucesso.

A primeira assembléia durante a greve foi realizada debaixo da chuva fina que caía naquela tarde do dia 13, no Estádio de Vila Euclides. Por força da improvisação, não havia palanque nem sistema de som. O presidente do Sindicato, Luís Ignácio Lula da Silva, falou para mais de 60 mil trabalhadores de cima de uma mesa, e suas palavras eram sucessivamente repetidas e passadas para trás.

Nesse mesmo dia, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) emitiu nota afirmando que não concederia qualquer aumento acima dos índices fixados no acordo com a Federação. Com esta posição da Fiesp, a primeira reunião de conciliação realizada na DRT (Delegacia Regional do Trabalho) fracassou, e o processo foi remetido ao TRT (Tribunal Regional do Trabalho).

Com a greve de 1979, os militantes e ativistas começaram a promover piquetes nas fábricas menos mobilizadas. Esses piquetes passaram a funcionar nos pontos estratégicos dos bairros das cidades do ABC e de São Paulo onde coincidiam os itinerários de ônibus que transportam os trabalhadores das grandes empresas. Esses piquetes nos bairros aconteciam independentemente do comando do movimento, pois eram organizados de forma espontânea ou pelo movimento popular.

No dia 15 de março, em assembléia, os trabalhadores reafirmam sua decisão de levar a greve “até a vitória”, em resposta à decisão do TRT, que concedeu um reajuste de 44% e declarou a greve ilegal.

No dia 16 de março, foi anunciada a criação do Fundo de Greve, que passaria a recolher e distribuir alimentos doados aos grevistas.

No domingo, dia 18 de março, 80 mil trabalhadores, acompanhados de suas famílias, realizaram assembléia no Estádio de Vila Euclides. Com essas manifestações, o movimento se consolida e ganha o apoio da sociedade, e a greve passa a atingir algumas fábricas de bases sindicais de outras cidades, como foi o caso de São José dos Campos.

A ação repressiva, que desde o início da paralisação já era intensa, a partir da segunda-feira, dia 19, torna-se mais agressiva e violenta. A Polícia Militar mobiliza toda a sua Tropa de Choque, cavalaria e soldados com cães para o ABC. A Igreja, representada pelo bispo diocesano do ABC na época, d. Cláudio Hummes, passou a marcar sua presença no movimento de forma cada vez mais comprometida com a causa dos trabalhadores.

No dia 23, o ministro do Trabalho, Murilo Macedo, determinou intervenção federal nos três sindicatos de metalúrgicos do ABC: no de Santo André, no de São Bernardo e Diadema e no de São Caetano do Sul. Como interventor no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema o ministro nomeou o delegado do Trabalho Guaracy Horta.

A greve geral continuou até o dia 27 de março, quando, em assembléia que reuniu 70 mil trabalhadores no Estádio de Vila Euclides, foi aprovada uma trégua de 45 dias, acordada entre os patrões e a diretoria cassada do Sindicato. A trégua previa a suspensão da greve e a reabertura das negociações.

Para os trabalhadores e suas lideranças, a suspensão da greve não significava o fim do movimento. Todos sabiam que teriam de manter a categoria mobilizada e organizada em torno da diretoria cassada do Sindicato. Sabiam também que os patrões e o governo propuseram a trégua contando com a desmobilização dos trabalhadores.

Durante esses 45 dias de “trégua”, os trabalhadores mantiveram-se mobilizados, pois a diretoria do Sindicato, embora destituída, continuava realizando reuniões com os trabalhadores nas portas de fábricas, nos bairros da região do ABC e de São Paulo e entregando materiais informativos.

O salão paroquial da igreja matriz de São Bernardo do Campo passou a ser a sede da direção do movimento. Sem poder imprimir a Tribuna Metalúrgica, boletim oficial do Sindicato, o ABCD Jornal, semanal que já existia em edição mensal, passou a circular freqüentemente, com linha editorial fornecida pela Diretoria e com distribuição gratuita. Realizaram-se shows, torneios de futebol e várias outras atividades, com objetivo também de arrecadar fundos. O ato de 1º de Maio, ocorrido durante esse período, reuniu mais de 150 mil pessoas no Estádio de Vila Euclides.

Finda a “trégua”, no dia 13 de maio é realizada nova assembléia, quando a proposta de acordo foi apresentada aos trabalhadores. A proposta estabelecia, entre outros itens, 63% de reajuste salarial (os trabalhadores reivindicavam 65%). A assembléia decide aprovar a proposta e a greve é encerrada.

Apesar da aprovação por maioria absoluta dos presentes, boa parte dos trabalhadores saiu insatisfeita com a proposta defendida pela Diretoria cassada e pela Comissão de Salários. Para esses, diferentemente da avaliação das lideranças, o movimento deveria continuar com a retomada da greve.

Setores oposicionistas à diretoria do Sindicato, ligados a correntes políticas, passaram a utilizar o descontentamento gerado com o fim do movimento para desgastar a Diretoria afastada. Isto fez com que a diretoria, ao retornar, convocasse uma assembléia para o dia 18 de maio, onde colocou seu mandato à disposição para que os presentes decidissem se deveria ou não retornar à direção do Sindicato. Em clima de festa, os trabalhadores aprovaram a retomada oficial da direção do Sindicato, por unanimidade.

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João Batista Rocha Lemos

Demerval Júlio de Grammont

José Carlos da Silva
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