até
Contexto | 1985

O movimento sindical volta com toda a força ao cenário das lutas nacionais, sobretudo com as greves de 1985, que se apresentam como resposta aos anos anteriores, de repressão e sérias dificuldades para os trabalhadores. Foram registradas perto de mil greves, representando um crescimento de mais de 50% no número de greves em relação ao ano de 84. E com o aumento médio das paralisações e, principalmente, com o aumento médio no número de trabalhadores grevistas, as jornadas perdidas por conta das greves passaram dos 14 milhões, em 84, para 76 milhões em 1985, o que significou um crescimento superior a 440%.

Um setor que contribuiu decisivamente para o volume de jornadas perdidas em greves foi dos professores e servidores de escolas e universidades públicas, responsável por 11% das greves de 85 e por 50% das jornadas perdidas neste ano. A eles seguiram-se os funcionários de estabelecimentos públicos de saúde, com 3,6% do total das greves, mas atingindo 13,4% das jornadas não realizadas. Entre as greves no setor público, a dos professores das universidades federais, iniciada em agosto com as unidades de Brasília, Mato Grosso e São Carlos, atingiu seu ponto máximo com total paralisação das fundações e universidades federais (12 mil professores). A greve encerrou-se em setembro, conseguindo reajuste de 100% do INPC e 4% de reposição salarial. Os funcionários da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos fizeram greve em maio, respondida com demissões dos líderes da associação dos funcionários. Fizeram nova greve em outubro e, mais uma vez, o ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, determina demissões de lideranças.

A principal reivindicação de todas as greves no setor privado era, invariavelmente, redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, e reajustes trimestrais devido ao processo inflacionário. Foi o ano em que mais se falou de 40 horas semanais. Tratava-se de uma luta por mais empregos, uma vez que o ano de 85 abriu com uma taxa de desemprego superior a 14% no primeiro trimestre. A greve pela jornada de 40 horas sem redução de salários começa no setor das indústrias automobilísticas e de autopeças, no ABC e em outras cinco cidades do interior paulista, em 11 de abril. A greve é transformada em “operação tartaruga” e mobilização dentro das fábricas, e é respondida, pelas empresas, com demissões diárias em massa. Em maio, a greve continua na Volkswagen e na Mercedes, e recebe adesão de 14 mil metalúrgicos da Ford. A greve na Ford prossegue até junho, mas a categoria não consegue a redução de jornada. As lutas dos trabalhadores contribuíram para que o nível de desemprego caísse, no último trimestre de 1985, cerca de 20% em relação ao mesmo período de 1984 (na Grande São Paulo, 9,8% em 85 contra 12,4% no último trimestre do ano anterior).

Outras conquistas das paralisações neste ano vieram na forma de reajustes superiores ao índice oficial de inflação, o INPC, em muitas categorias, sobretudo nas campanhas do segundo semestre. E boa parte dos acordos firmados incluíam ganhos de produtividade para os trabalhadores. A greve de maior repercussão foi a greve nacional dos bancários, paralisando 700 mil trabalhadores, em setembro, e reivindicando INPC integral, 10% de produtividade, 8% de reposição salarial, um ano de estabilidade e reajustes trimestrais. Rapidamente os TRTs julgaram e concederam boa parte das reivindicações econômicas. Em novembro, a CUT deflagra greve nas empresas da área química, plástica e metalúrgica de São Paulo, conquistando antecipação trimestral e redução da jornada de trabalho para 45 horas, além de 12% de aumento real. Segundo o Dieese, ao lado das antecipações trimestrais e da redução da jornada de trabalho, as conquistas salariais obtidas foram responsáveis pela ativação da economia brasileira, com a retomada do crescimento do Produto Interno Bruto, ampliando o mercado de trabalho, com conseqüentes faturamentos e lucros maiores para indústrias, comércio, bancos e agricultura.

Nas categorias pouco ou nada organizadas, no entanto, o trabalhador recebeu, neste ano, um salário mínimo real médio menor do que o salário mínimo médio de 1984. O valor médio do salário mínimo, que vinha experimentando queda ininterrupta desde 1982, acabou resultando, em 1985, no menor valor do salário mínimo em 34 anos (só superando os índices de 1951). Na zona rural onde os trabalhadores mostravam maior organização, como no interior de São Paulo, as greves reivindicavam cumprimento da jornada de 8 horas com direito a descanso semanal e elevação do valor da diária. No mês de maio, uma greve paralisou 60 mil bóias-frias na região de Ribeirão Preto, e o retorno ao trabalho foi mediado pelo próprio ministro Pazzianoto – mas as principais reivindicações dos trabalhadores não foram atendidas.

Certamente não se pode desvincular o desempenho apresentado pelas lutas sindicais das transformações políticas conquistadas pela sociedade como um todo, para o país. Em outras palavras, não se pode desvincular o crescimento do movimento sindical, acima indicado, da posse, em março, do primeiro governo civil depois de 21 anos de ditadura militar. Ainda que José Sarney fosse tutelado pelos militares, a pressão das expectativas da sociedade e as negociações com a sociedade civil organizada obrigavam-no a conduzir seu governo de forma diferente dos governos militares. Foi a chamada “Nova República”.

Para importantes ministérios da área social, o novo governo buscou pessoas com maior trânsito junto à Igreja e a outros setores de algum poder de pressão real ou potencial. Assim é que, no início de seu governo, Sarney convidou Almir Pazzianoto para seu ministro do Trabalho. Ex-defensor de sindicatos metalúrgicos do ABC, acreditava-se que teria condições de mediar conflitos e, sobretudo, de reconhecer os direitos dos trabalhadores e a liberdade sindical. De fato, Pazzianoto introduziu no governo uma política liberalizante em relação aos movimentos dos trabalhadores. Aboliu o estatuto padrão, suspendeu o controle direto das DRTs sobre as eleições sindicais e eliminou a prática de intervenção federal e de deposição de diretorias dos sindicatos combativos.

Em certa medida, portanto, a reanimação das lutas sindicais está relacionada à mudança política conquistada no país. A greve nacional dos bancários é um exemplo, quando observamos que a categoria não esteve mobilizada em qualquer paralisação entre os anos de 1980 e 1983, e apenas parcialmente mobilizada em 84.
No campo da organização sindical, depois de um ano em que se havia realizado o primeiro congresso da CUT (I Concut - agosto/84), o ano de 85 representou mais retrocessos que avanços.

O mês de janeiro foi marcado pela realização do IV Congresso da Contag. Atuando no campo da CGT, da qual fez o vice-presidente (José Francisco da Silva), a Contag trava internamente o debate entre a aceitação de um novo modelo de ação e organização sindical e as velhas estruturas herdadas do getulismo. No seu IV Congresso vence mais uma vez a postura da diretoria anticutista, contra a liberdade sindical. Ao mesmo tempo, torna-se evidente o comprometimento da confederação com as políticas do novo governo: a entidade endossa a proposta do Plano de Reforma Agrária do governo Sarney e indica quadros de sua confiança para ocupar cargos federais.

Em setembro, articula-se a criação da União Sindical Independente (USI), basicamente de federações e confederações de trabalhadores do comércio.

A pressão social com respeito ao valor irrisório do salário mínimo e, principalmente, o descontentamento geral com os índices inflacionários que corroíam os ganhos que as categorias profissionais logravam obter em seus acordos coletivos, chegaram ao final do ano em níveis quase insustentáveis para o governo da “Nova República”. O ano de 84 havia fechado com um crescimento acumulado de 200% no custo de vida em São Paulo. Já o primeiro ano do governo Sarney fechou com a taxa de 264% de aumento no custo de vida para São Paulo. A resposta do governo viria em fevereiro de 86, com o lançamento do Plano Cruzado, amortecendo temporariamente os conflitos trabalhistas e o descontentamento nacional.


Acompanhe também nesta década:
Campanhas salariais

» 1985
» 1986
» 1987
» 1988
» 1989
» 1990
» 1991
» 1992
» 1993
» 1994
Congressos

» 1987
» 1991
» 1993
Eleições

» 1987
» 1990
» 1993
Mandatos

» 1987 a 1990
» 1990 a 1993
» 1993 a 1996
© Copyright 2009, ABC de Luta! Memória dos Metalúrgicos do ABC - Todos os direitos reservados

Mapa do Site Fale Conosco Créditos Política de Privacidade

smabc.org.br