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Contexto | 1998

A marca registrada do primeiro mandato de Fernando Henrique - a mútua alimentação entre a economia e a política, em proveito desta chega ao limite em 1998. Na economia, as recorrentes crises externas dinamitam progressivamente o real e sua âncora cambial, produzindo mais recessão e mais desemprego, chegando a colocar em risco o objetivo político maior, afinal conquistado - a reeleição. O colapso definitivo, porém, fica postergado para o segundo mandato.
O ano se inicia com clima de otimismo e alívio, mas apenas produzidos por contraste com a crise do final do ano anterior. O relativo apaziguamento da crise asiática, embora ainda tivesse muitos desdobramentos, viabiliza o retorno dos capitais especulativos de curto prazo ao país, atraídos por juros elevadíssimos, reduzindo a pressão sobre o dólar.
Também na seara política a situação do governo melhora: as reformas previdenciária e administrativa são aprovadas em primeiro turno (respectivamente na Câmara e no Senado), e a convenção peemedebista rejeita a candidatura própria à presidência, vetando as pretensões do ex-presidente Itamar Franco e da ala oposicionista do partido.
O Banco Central consegue fazer um corte dos juros maior do que se esperava, e mesmo se dar ao luxo de reerguer algumas restrições aos capitais mais especulativos. O nervosismo, contudo, ameaça voltar com força redobrada mais à frente: em meados do ano, a instabilidade retorna à Rússia, há anos na alça de mira dos mercados financeiros e sob a ajuda do FMI. No Brasil, porém, o calendário eleitoral dá o tom das ações: a ordem é segurar a crise até outubro (mês das eleições), pelo menos, e quaisquer medidas só são adotadas de forma reativa, em doses mínimas.
Prosseguindo com o corte dos juros, o governo conta com a aceleração da agenda de reformas para restaurar sua credibilidade externa e minimizar os riscos eleitorais. Em março, a reforma administrativa é aprovada em votação final e promulgada, e a venda das concessões da banda B da telefonia celular prossegue, enquanto se aguardava, como evento do ano, a privatização da Telebrás, que vinha sendo preparada pelo ministro das Comunicações e principal articulador político do presidente e de seu partido, Sérgio Motta. A venda da estatal será realizada, com êxito, em julho, comandada por Luiz Carlos Mendonça de Barros, sucessor de Motta.
Logo mais, no entanto, Fernando Henrique enfrenta seu momento mais crítico na travessia reeleitoral. A economia está estagnada (o PIB cresce 0,15% no ano) e tensões sociais explodem: à nova alta do desemprego (acima de 12% na Grande São Paulo) se soma a repercussão negativa da inação do governo frente à forte seca nordestina e ao incêndio em Roraima; morrem, com intervalo de dois dias, Sérgio Motta e Luís Eduardo Magalhães (líder do governo na Câmara), os principais articuladores políticos do governo; e, para piorar, há a derrota do governo na sua proposta de estabelecer a idade mínima para a aposentadoria. É nesse período que FHC colhe seus piores índices de popularidade, e as pesquisas eleitorais mostram crescimento forte das intenções de voto em Lula, que ameaça a reeleição.
Mas a inflação despenca para índices anuais abaixo de zero. E a crise externa, que poderia ser vista como o golpe de morte no governo, pode ter sido a responsável pela reviravolta política, tão rápida quanto havia sido a quase derrocada. O colapso final da economia russa reacende a crise cambial no Brasil, agora com força redobrada, com intensa fuga de capitais e uma corrida contra a moeda nacional, às vésperas das eleições. Com isso Fernando Henrique, em vez de ser responsabilizado pela crise perante o eleitorado, passa a ser visto como o único candidato capaz de debelá-la, retomando a dianteira folgada sobre Lula e obtendo a vitória no primeiro turno.
No segundo turno das eleições para governador, os destaque são as vitórias de Itamar Franco, em Minas, contra o peessedebista Eduardo Azeredo - resultado que provocará, em 1999, desdobramentos desagradáveis para Fernando Henrique - e a reeleição de Mário Covas, em São Paulo, sobre Maluf, nesse caso fortalecendo o presidente e seu partido.
As eleições transcorrem em clima de alta instabilidade econômica, com juros extremamente elevados e acompanhados por diversas medidas para atrair capital externo especulativo, visando estancar a sangria de dólares, ao mesmo tempo em que se iniciam, a toque de caixa, negociações com o Fundo Monetário Internacional. A vitória de FHC e o apoio do FMI acalmam o pânico cambial, enquanto se costura um novo pacote fiscal, o mais duro de todos.
Embora em ritmo mais lento, a perda de reservas cambiais não é interrompida, e expressa o descrédito dos investidores na estabilidade da moeda nacional. As autoridades econômicas, contudo, conseguem convencer o FMI de que a política cambial pode se manter inalterada, e que os juros muito altos, a recessão (que conteria importações) e o ajuste fiscal acelerado são suficientes, como nas outras crises, para atravessar o período de maior turbulência internacional. A aposta inicial do real, portanto, foi mais uma vez aumentada, ao custo de bilhões de dólares que escapavam do país.
Com isso, foi na prática antecipado o início do segundo mandato de Fernando Henrique. Ele e seu partido, enfraquecidos e necessitando de apoio irrestrito e rápido do Congresso para aprovar as medidas acertadas com o FMI, são dominados novamente pelos demais partidos da aliança que o reelegera, com destaque para o extraordinário reforço da influência do PFL da ACM.
Cancela-se, nesse momento, toda a negociação que vinha sendo conduzida com vistas à montagem de um ministério mais “desenvolvimentista”, especialmente depois que seu mais importante defensor no governo, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é forçado a renunciar sob denúncias de manipulação na condução da venda da Telebrás, captadas por grampo telefônico. Com ele, esvazia-se também o status do futuro Ministério da Produção ou do Desenvolvimento.
A formalização do acordo com o FMI, no início de dezembro, e o desembolso da primeira parcela de recursos, fundamental para fortalecer o poder de fogo do Banco Central frente ao ataque especulativo em curso, ajudam a melhorar um pouco as expectativas. Mas não haverá tempo para que essa melhora se desdobre na retomada do comando da política econômica pelo governo. Ainda em dezembro a medida provisória que aumenta a alíquota do desconto previdenciário para os servidores da União e estende essa contribuição para os inativos é rejeitada, na pior derrota sofrida pelo governo FHC, exatamente quando ele vive seu momento mais delicado.
O ano termina com uma reformulação ministerial que espelha o otimismo do governo: contemplam-se à fartura todos os aliados partidários e pessoais. Mas 1999 começará pior do que o governo podia imaginar: Itamar Franco decreta moratória da dívida de Minas Gerais para com a União, recém-renegociada por seu antecessor. A situação econômica, que vinha ruim desde setembro, em poucos dias passa a ser de pânico financeiro e cambial. Em menos de um mês o Banco Central sucumbirá, impotente para conter a maxidesvalorização do real frente ao dólar, há tantos anos adiada.


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