até
Contexto | 1993

Itamar Franco lida, em 1993, com um quadro econômico muito parecido com o padrão predominante nos anos oitenta, ao qual o Plano Cruzado e o Plano Collor tentaram derrotar. O sistema de reindexação, que se reimpusera com o fracasso do Plano Collor, tem continuidade no seu governo.

Também o sistema político mais tradicional voltara à cena em 1992 e se consolida com Itamar Franco. E, ainda, a agenda liberal modernizadora de gradual abertura externa, de privatizações e de integração regional, que Collor iniciara, igualmente tem prosseguimento com Itamar.

Mas nesses três itens existem matizes que diferenciam o período Itamar do período Collor. Na economia, são buscados paliativos e atenuantes para o efeito dos preços na população, além de propostas pontuais de compensações sociais aparecerem no discurso do governo.

Na política, o quadro que ascende é tradicional, mas algo distinto do que dominara a Nova República e o final do governo Collor: o PFL está fora e também as grandes estrelas do PMDB. Personalidades antes de segunda linha ou mesmo de partidos antes oposicionistas (PPS e PDT, por exemplo), outras ligadas pessoalmente a Itamar, dão representatividade ao sistema tradicional no governo, mas não lhe dão força partidária respeitável. Isso deixa espaço ao presidente para agir de forma voluntarista e algo errática, com declarações e atitudes surpreendentes, responsáveis pela fama de intempestivo que adquire.

E na agenda modernizadora, Itamar, que até acelera seu ritmo e realiza as maiores privatizações até então, introduz um discurso moralizador acerca de preços e processos o que, porém, não lhe dá a simpatia da esquerda e irrita a direita interessada na questão. É outra fonte de atritos.

O governo muda de perfil quando Fernando Henrique Cardoso, ministro das Relações Exteriores, assume o cargo de ministro da Fazenda, em meados do ano. Sua ação política de convencimento dos atores dominantes e a montagem de equipe técnica de alto nível na área econômica ensejarão o cronograma que resultará no Plano Real em 1994.

Logo que tem início o ano, Itamar libera estoques e baixa alíquotas de importação de vários produtos para conter a inflação, perto de 30% ao mês. No ano, ela totalizará cerca de 2.700%, a maior da nossa história. A reindexação de contratos rapidamente abrange quase toda a economia, com exceção, de novo, de preços e tarifas públicas, cujos reajustes são mais lentos e parciais (com perdas para o Estado) e dos salários, cuja indexação quase total só ocorrerá no segundo semestre, mas ainda com perdas em função do alto patamar inflacionário.

O presidente também introduz a discussão do “carro popular”, começando pela volta do Fusca, extinto três anos antes. Depois, as outras montadoras também lançam seus respectivos modelos populares: carros de baixa cilindrada com preço ao consumidor em torno de US$ 7 mil. O governo reduz o IPI até quase zero e os Estados baixam o ICMS para permitir esse preço.

Na verdade, os carros populares aparecem como substitutos da câmara setorial da indústria automotiva, experiência inovadora que sindicatos e empresários do ABC paulista puseram em marcha ao longo de 1992 e concluem no início de 1993. Diante da extrema crise no setor, trabalhadores e empresários, e depois também o governo, negociam acordo abrangente, com metas anuais de redução de preços e de impostos para reativação da produção, do emprego e das exportações, itens para os quais são acertadas metas e compromissos, como o de manter o valor real dos salários.

Grande parte do governo não vê com bons olhos essa experiência, por atribuir-lhe capacidade de tirar do governo a iniciativa das decisões econômicas, ou de prejudicar outros setores da economia com menor poder de articulação. Argumentos desmentidos pelos resultados oficiais de arrecadação, produção, emprego etc. obtidos em decorrência do acordo.

O fato é que, seja em função desses argumentos, seja em função de Itamar querer patentear iniciativas que lhe dessem popularidade, o carro popular, ótimo negócio para as montadoras, que não precisavam mais assumir compromissos como os da câmara setorial (mas o acordo assinado continuou vigendo), entra em cena e esvazia aquela que é a mais criativa experiência de negociação sindical dos anos noventa. De todo modo, as duas vias fazem com que em 1993 seja batido o recorde de produção automobilística anual: 1,38 milhão de veículos, contra a marca anterior de 1,16 em 1980.

Itamar obterá, na economia, a volta do crescimento econômico (5%, sobre a base rebaixada da recessão anterior), a redução do desemprego (de 5,8% para 5,3% nas principais capitais; e de 15,2% para 14,6% na Grande São Paulo) e a redução do déficit para cerca de 1% do PIB (era de 1,6% em 1992), efeito da redução dos juros reais para cerca de 7% ao ano, dos 30% de 1992. São juros ainda elevados, suficientes para atrair grande volume de capital externo e fazer crescer as reservas internacionais para o recorde de US$ 32 bilhões, variável que será vital para o sucesso do Plano Real no ano seguinte.

Mas sua condução econômica é recheada de conflitos com ministros e auxiliares. O presidente do BNDES se demite porque o banco foi afastado do Programa de Desestatização; o presidente do Banco Central se exonera por desentendimentos com Itamar; Paulo Haddad cai por ter anunciado corte de zeros e adoção do cruzeiro novo antes do presidente e porque Itamar troca os presidentes do BNDES e do Banco Central sem consultá-lo; seu substituto, Eliseu Resende, cai por suspeita de favorecimento a empreiteira; e ministros são substituídos em todas as áreas com grande freqüência e quase sempre por atritos com Itamar. Em meio a isso, a inflação é superior a 30% ao mês e a popularidade do presidente cai sensivelmente.

O governo Itamar parece, então, fadado a repetir a fase terminal do governo Sarney em 1988/89, isolado, derrotado pela inflação e sem perspectivas. Na política, não consegue ampliar seu amplo arco inicial de apoios. O PFL assume a presidência da Câmara e mantém-se distante, embora apoiando em parte algumas iniciativas, como a aprovação do IPMF e as políticas salariais do Executivo. O PT se afasta ainda mais, principalmente depois de Erundina ser ministra. O PMDB mantém seu apoio, mas dividido: em setembro, os governadores Fleury (SP), Iris Resende (GO) e Jader Barbalho (PA) pedem o rompimento com o governo, mas são derrotados.

O PT se firma como o principal partido da oposição e mantém a liderança nas sondagens para a eleição de 1994. Lula reforça seu prestígio apresentando a Itamar a Política Nacional de Segurança Alimentar, depois coordenada por Betinho como Campanha Nacional de Combate à Fome e à Miséria, com grande repercussão e adesão popular, e realizando, com o PT, duas Caravanas da Cidadania para percorrer o país. Cresce também com a vitória do presidencialismo (ao qual apóia) no plebiscito de abril: 55%, contra 24% do parlamentarismo.

Itamar mantém a agenda do Mercosul e realiza grandes privatizações, sobretudo a da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em abril, envolta em polêmica e protestos. Adota o corte de zeros o cruzeiro real em agosto. Realiza ensaio de negociações com empresários e trabalhadores em julho. Preside a Cúpula Ibero-Americana em Salvador com 21 países, cujo documento final pede combate à pobreza. Mas o segundo semestre será dominado por três aspectos que põem Itamar em segundo plano.

O primeiro, com grande debate, é a instalação da revisão constitucional, previsto para cinco anos depois da Constituição de 1988. A esquerda é contra e tenta boicotar. O Centrão mantém sua realização, mas ao longo de 1994, tendo em vista a prioridade da eleição presidencial, a esvazia, com apoio do governo.

O segundo é a eclosão do escândalo do orçamento. Um assessor do Legislativo denuncia enorme esquema de corrupção envolvendo deputados, senadores, empresários e quadros do Executivo. O Congresso instala uma CPI mista e as investigações envolvem muita gente, incluindo o ex-presidente da Câmara no processo de impeachment, Ibsen Pinheiro, do PMDB.

Mas o processo mais importante, que tira Itamar do proscênio, é a ação de FHC no Ministério da Fazenda. Em junho, lança um plano para recuperar as contas públicas; em setembro, separa as contas do Banco Central e do Tesouro; em novembro, fecha acordo com 90% dos credores, rolando US$ 52 bilhões com bancos privados e US$ 6,3 bilhões de juros atrasados; e em dezembro cria o Fundo Social de Emergência, pelo qual desvincula 15% das receitas orçamentárias para usar de forma livre, e anuncia o cronograma do Plano Real, prevendo, para março, a introdução da Unidade Real de Valor (URV), que na prática indexa a moeda nacional ao dólar para conter a inflação.

Sua ação política para viabilizar essas medidas, contudo, são mais importantes: ele reconstrói a relação do governo com a mídia, os grandes empresários e as lideranças políticas e obtém autonomia de gestão econômica frente a Itamar. Na prática, desde o início trabalha para ser o candidato do sistema para combater Lula em 1994. Sua grande arma será a estabilização econômica e em, nome de seu projeto as reformas estruturais de caráter liberal que as elites queriam ver adotadas na revisão constitucional são adiadas para o novo governo, a assumir em 1995. O que se passará em 1994 será quase o desenvolvimento em cena do script que FHC escreve em 1993.

Acompanhe também nesta década:
Campanhas salariais

» 1993
» 1994
» 1995
» 1996
» 1997
» 1998
» 1999
» 2000
» 2001
» 2002
Congressos

» 1993
» 1996
» 1999
Eleições

» 1993
» 1996
» 1999
» 2002
Mandatos

» 1993 a 1996
» 1996 a 1999
» 1999 a 2002
» 2002 a 2005
© Copyright 2009, ABC de Luta! Memória dos Metalúrgicos do ABC - Todos os direitos reservados

Mapa do Site Fale Conosco Créditos Política de Privacidade

smabc.org.br