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Contexto | 1981

A crise econômica, que se anunciava claramente em 1980, aparece plenamente estabelecida em 1981. Chegava o momento do país pagar a conta do “milagre econômico”, pelo pagamento dos altos custos da dívida externa. Crescem as demissões e o fantasma do desemprego torna-se inibidor dos grandes movimentos grevistas. Entre as maiores retrações verificadas na economia, o setor industrial de São Paulo recuou em -14,3% logo no início do ano. A queda no emprego era facilmente constatada em todos os grandes centros, como o recuo no setor industrial também em Porto Alegre (-9,73%) e Rio de Janeiro (-9,12%). Na construção civil a queda na atividade chegava, no início de 1981, a -22,2% em Brasília e -12% no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.

Em relação ao ano anterior, no entanto, 1981 teve um número de greves ligeiramente maior, e a média geral dos dias parados nas greves ocorridas durante 81 (acima de 9 dias por greve) foi a maior entre os anos de 80 e 82. Porém, em sua quase totalidade, foram greves por local de trabalho. Daí também a importância que adquiriu, nos debates públicos (seja do movimento sindical em si, seja dos próprios empresários) a questão da constituição das comissões de fábrica. As principais categorias mobilizadas em greves, naquele ano, foram metalúrgicos, professores, trabalhadores da construção civil, médicos e motoristas. De fato, o grande “refluxo” das greves viria a caracterizar o ano seguinte, 1982.

Outro fato que marcou o movimento sindical, como todos os movimentos sociais, naquele ano, foi o episódio do Riocentro e seus desdobramentos. No Dia do Trabalhador, no pátio do local em que ocorria o show de 1° de Maio, uma bomba explodiu dentro de um carro, no colo de um sargento do Exército, que morreu na hora. Outro militar saiu seriamente ferido. Descobriu-se que algumas portas do Riocentro haviam sido trancadas com cadeados. O objetivo era uma ação terrorista militar, de extrema-direita, que representaria o auge de um conjunto de atentados que desde o ano de 80 vinham sendo praticados contra bancas de revistas, jornais de oposição e entidades defensoras dos direitos civis. O governo do general Figueiredo decidiu acobertar o setor militar responsável pelo caso, e inventou-se uma fantasiosa história de atentado terrorista de esquerda contra os militares. Fatos como o do Riocentro ou a bomba que explodiu na sede da OAB, no Rio de Janeiro, demonstravam a fragilidade do processo chamado de “distensão” e “abertura política”. A direita militar mostrava-se forte e desafiadora, constituindo assim mais um elemento intimidador dos movimentos, inclusive o sindical. Confirmavam isso as intervenções do Ministério do Trabalho que persistiam em alguns dos mais importantes sindicatos.

Mesmo assim, 1981 ficou marcado por uma importante conquista, obtida na greve da Ford de São Bernardo do Campo, em julho: paralisando a unidade por seis dias, em defesa da readmissão de 457 colegas demitidos, os operários da Ford conquistaram a primeira Comissão de Fábrica eleita pelos trabalhadores, que provocaria o surgimento de comissões semelhantes em todas as outras grandes montadoras a partir de então. Na Volkswagen, onde os patrões tentaram adiantar-se aos trabalhadores formando uma comissão de fábrica sob seu controle, os trabalhadores conquistaram a comissão, elegendo novos membros.

O outro grande saldo positivo, e o mais importante, no ano de 81, deu-se no campo da (re-)organização do movimento sindical. Em junho realiza-se o III Encontro Nacional de Movimentos Populares (Enamp), em Vitória (ES), com 130 delegados de 18 Estados. O encontro aprova a formação de uma Central Única. Encontros como esse constituíam articulações para a construção de um movimento sindical mais forte e organizado. Ao mesmo tempo, crescia rapidamente o movimento associativo, seja pelo crescimento de filiados em sindicatos estabelecidos seja, principalmente, pelo surgimento de novas entidades. O caminho da primeira conferência nacional do movimento sindical estava construído.

Apesar das divergências, organiza-se a I Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (Conclat). Tratou-se, de fato, da primeira grande conferência nacional da classe trabalhadora desde o golpe militar de 64.

Seguindo o historiador Leôncio Martins Rodrigues, podemos dizer que quatro grandes tendências se digladiavam no movimento e integravam os grupos que, articulados, levaram à construção da Conclat: (1) Bloco dos sindicalistas “autênticos” (também chamados de “independentes” e, em outro momento, “combativos”), comprometidos com a criação do PT; (2) Unidade Sindical (PCB, PC do B e MR-8), que tinha base em várias diretorias de sindicatos e que era contra criação do PT, insistindo nas alianças com o PMDB; defendia autonomia dos sindicatos frente ao Estado, mas era contra a liberdade sindical; sua estratégia revivia a velha estratégia pecebista da revolução em duas etapas; (3) oposições sindicais – oposição às diretorias pelegas, contava com “facções ‘obreiristas’ radicais”, a maioria ligada às pastorais operárias –, valorizavam comissões de fábrica como organizações autônomas, não controladas pelo sindicato (ao contrário dos “autênticos”), e rejeitavam políticas de alianças com setores da burguesia; (4) extrema-esquerda: grupos de ativistas sindicais de pequenos partidos de orientação leninista.

A Conclat acontece em agosto de 1981, em Praia Grande, SP. Ali estavam representadas, de fato, todas as forças militantes do sindicalismo brasileiro. A conferência contou com representação de 480 sindicatos urbanos, 348 rurais, 32 associações de funcionários, 176 associações pré-sindicais, 33 federações urbanas, 4 confederações, totalizando 1.126 entidades e 5.247 delegados. A representação rural, com 1.050 delegados e representantes, chegava a 20% dos participantes no congresso, surpreendendo muitas pessoas, de organizadores a estudiosos do movimento sindical. O setor operário correspondia a cerca de 42% dos presentes na conferência (2.200 delegados) e o setor de serviços chegava a 38%.

A mais importante definição da Conclat foi a criação de uma Comissão Nacional Pró-CUT, com 56 membros – 24 rurais e 32 urbanos –, o que configurava um peso para a representação rural (42%) bastante superior ao que possuía na própria conferência. Definiu-se também uma data para a II Conclat, que seria organizada para a construção da central sindical: agosto de 1982.

O ano de 81 foi marcado, ainda, por nova tentativa das oposições de conquistar o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, então, já há mais de 15 anos comandado por Joaquim dos Santos Andrade, o “Joaquinzão”, um exemplo de sindicalista criado nas velhas práticas e estruturas atreladas ao Estado. Mais uma vez, porém, Joaquinzão vence as eleições, sendo decisivos os votos dos aposentados e dos trabalhadores de empresas com até 10 empregados.

No mês de agosto, levanta-se a intervenção em São Bernardo e, em nova eleição, a categoria coloca Jair Meneguelli na presidência do sindicato dos metalúrgicos.


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