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Contexto | 1989

O pior ano do governo Sarney, e talvez o pior da crise dos anos oitenta, sela de vez o colapso do modelo de desenvolvimento que vigorara até o final dos anos setenta (industrialização por substituição de importações com presença forte do Estado) e abre espaço para os desafios e crises da década seguinte, quando se tentará implantar a agenda modernizadora de cunho liberal durante os governo Collor-Itamar e Fernando Henrique Cardoso.

A inflação chega à casa de 2.000% ao ano, as finanças públicas se esfrangalham, com a dívida interna superando 13% do PIB e o déficit operacional batendo em 7% do PIB. Greves e conflitos sindicais se multiplicam. A base política de Sarney debanda no correr do ano, à medida que a inflação dispara e se define a corrida para a eleição presidencial de novembro.

Os partidos identificados com a Nova República (PFL e PMDB), assim como os políticos mais conhecidos, são afetados pelo quadro de crise. Tanto que os dois finalistas no segundo turno da eleição serão Lula e Collor de Mello, dois atores de algum modo externos ao sistema tradicional e cujo discurso era de oposição vigorosa ao establishment. Collor, na verdade, terá o apoio das elites, mas sua campanha vende com sucesso a ilusão de que o Brasil entraria em nova era.

O ano de 1989 pode ser visto em duas fases. A primeira, de janeiro a junho, registra a tentativa de Sarney de controlar a inflação e, com isso, recuperar popularidade e comandar o processo sucessório, talvez ungindo o candidato vitorioso. Fracassa e assiste à explosão de demandas e descontentamentos e ao abandono de seus poucos aliados restantes.

O segundo semestre é o de desorganização econômica, que só não leva à hiperinflação pela montagem de um sistema de indexação quase pleno, no qual, porém, também há ganhadores e perdedores: aplicações financeiras com rendimento diário (e elevado), reajustes de preços diários e salários com reajustes mensais, assim como as tarifas públicas. É também o período de incapacidade política de governar de Sarney, isolado e atacado por todos na campanha presidencial.

Em janeiro, depois de um ano em que remontara sua base político-partidária, Sarney anuncia o Plano Verão, um simulacro do Plano Cruzado com congelamento de preços (no pico, pelo realinhamento promovido nas vésperas) e salários (na média, o que consagra perdas salariais de vários níveis). Tenta-se desindexar de novo a economia para romper a espiral inflacionária; corta-se o crédito em alguns setores para desaquecer a demanda e refrear preços; anunciam-se demissão de servidores públicos não-estáveis (90.000), não efetivada, e privatização de estatais; e, por fim, cortam-se três zeros do cruzado, adotando-se o cruzado novo.

Os problemas ocorridos no Cruzado se repetem, só que mais rapidamente e com mais vigor. Produtos desaparecem, empresários pressionam por aumentos, trabalhadores lutam pela reposição de perdas e realizam uma grande greve geral em março, seguida de greves em várias categorias em abril, algumas resultando em conflitos violentos. A inflação rapidamente chega perto dos 10% ao mês e leva o governo a autorizar aumentos de preços e a adotar novo indexador na economia.

As greves acabam resultando em reposições parciais das perdas e se alastram. Sarney adota, por Medida Provisória, uma Lei de Greve restritiva, o que aumenta a insatisfação dos sindicatos. A CUT declara que não irá cumprir a legislação e seu presidente é chamado a depor na Polícia Federal. Passeata dos metalúrgicos do ABC é reprimida a tiros, com 5 grevistas baleados. Servidores públicos entram em greve nacional por cerca de um mês e invadem o Ministério do Trabalho. Ao mesmo tempo, grupos direitistas explodem em Volta Redonda o monumento erguido aos operários mortos no ano anterior.

O desgaste do governo, a subida da inflação com reajustes de preços e desvalorizações cambiais seguidas e o quadro pré-eleitoral fazem o Congresso confrontar Sarney. Derruba o veto presidencial e mantém gratificações extraordinárias aos servidores públicos (antes da greve da categoria); rejeita a Lei de Greve e a substitui por legislação algo mais flexível; e aprova nova lei salarial com reindexação diferenciada por faixas salariais.

Sarney veta a lei salarial no mesmo momento em que adota de novo a reindexação diária para contratos e câmbio e a inflação passa de 20% ao mês. Em resposta, o Congresso derruba o veto presidencial em junho e, com isso, decreta a ocaso político do governo, que purgará até março do ano seguinte para evitar a desorganização completa. A inflação de dezembro será superior a 50%.

No campo político, além do isolamento crescente de Sarney frente aos partidos, vários ministros abandonam o governo e são substituídos por amigos e colaboradores próximos, com pouca abrangência política. No bloco que originou a Nova República, o PFL e o PMDB lançam candidatos próprios à presidência (Aureliano Chaves e Ulysses Guimarães, respectivamente) e nenhum deles se apresenta como aliado de Sarney; e o PSDB lança Mário Covas também com discurso oposicionista e apresentando-se como modernizador ao falar em "choque de capitalismo").

As esquerdas lançam Leonel Brizola, com discurso nacionalista, Lula, com propostas desenvolvimentistas e Roberto Freire, falando em democratização do Estado. Collor de Mello se lança pelo inexpressivo PRN (Partido da Reconstrução Nacional) atacando a corrupção, os "marajás" e o governo Sarney e propondo reformas liberais.

A derrocada da Nova República abala o sistema político tradicional e Lula (com 17,19% dos votos válidos) e Collor (30,48%) vão para o segundo turno, sendo o PFL e o PMDB humilhantemente rejeitados nas urnas. Lula reúne em seu apoio toda a esquerda e a centro-esquerda, apesar de o PSDB demorar a se definir pela sua candidatura, que tinha então traços "radicais" (estatização do sistema financeiro, reforma agrária feita pelos trabalhadores etc.) que não voltaria a ostentar nas candidaturas futuras (1994 e 1998). Collor congrega a centro-direita mesmo atacando-a em discurso e dizendo-se alternativa nova ao sistema político.

Bipolarizada, a campanha empolga o Brasil e dá margem a alguns conflitos violentos entre os eleitores de Lula e Collor. Este último, com os recursos da direita, o apoio das elites e dirigindo-se aos mais pobres (aos quais trata por "descamisados"), mostra força eleitoral mas também disposição para valer-se de expedientes pesados na campanha, com denúncias e chantagens contra Lula, contando com a repercussão afável da mídia.

Lula mobiliza os setores sociais organizados e grande parte dos setores médios mudancistas, mas assenta-se em campanha algo amadora, que não consegue se contrapor ao jogo pesado do adversário. Sua vitória chega a ser factível no final da campanha segundo projeções das pesquisas, mas a repercussão do debate televisivo com Collor lhe é muito desfavorável, o que, juntamente com outros fatos, contribui para sua derrota.

Collor é eleito presidente no segundo turno com 55,7% dos votos válidos. Lula teve 44,3%. Eram as primeiras eleições diretas desde 1960, quando Jânio Quadros foi eleito para suceder Juscelino Kubitscheck . Mas não será dessa vez que um presidente eleito voltará a completar seu mandato. Collor cairá em 1992, por corrupção.


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