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Contexto | 1986

Historicamente, 1986 está marcado como o “ano do Plano Cruzado”. Ano da graça de Sarney e da Nova República, com todos os indicadores econômicos favoráveis e com índices de popularidade recordes do presidente. A inflação será de 65% até dezembro (já incluindo mais de 30% de janeiro e fevereiro, antes do Plano); o crescimento será de 7,6%; a taxa de investimento subirá de 16% para 19% do PIB; a dívida interna e o déficit público serão diminuídos; o desemprego cairá para 3,6% (era de 7,1% em 1984 e 5,3% em 1985); e ocorrerão elevação do valor real do salário mínimo e dos salários em geral, aumento dos rendimentos médios reais dos trabalhadores e desconcentração de renda.

O Plano Cruzado coroa o sentimento político da campanha das Diretas-já e dissemina a avaliação de que o país superara de vez sua crise. Era a vitória da produção contra a especulação financeira, tão cara ao programa dos oposicionistas do regime militar. A derrubada dos grandes empresários com suas enormes margens de lucro. A vitória da população contra os banqueiros. É dessa forma que o governo vende o Plano Cruzado e é dessa forma que o povo o compra, apoiando-o com graus de adesão e fiscalização inéditos até aquele momento.

Mas o ano do Cruzado terminará mais cedo. Precisamente em novembro, logo depois das eleições para governadores, senadores e deputados federais e estaduais. O governo lança um conjunto de correções (de impacto inflacionário) no Cruzado que adiara ao longo do ano, embalado pela popularidade e pelo horizonte eleitoral. O descontentamento popular com a repentina alta de preços e o fim do sonho instaura de novo a crise no governo Sarney, que a partir daí voltará à instabilidade anterior e verá crescentemente seu governo apenas gerenciar os problemas sem sucesso, deixando o país caminhar para uma situação pré-caótica no final do seu mandato.

O ano tem início com novo acordo externo, pelo qual o Brasil mantém créditos de curto prazo e suspende pagamentos do principal da dívida de 1985 e 1986, acordo que será ampliado em março com o reescalonamento da dívida, a extensão dos financiamentos e a redução de juros com seus credores, sem recorrer ao FMI. Ao longo do ano, contudo, haverá avanços e recuos nessa questão, sem que haja solução. A tal ponto que no final do ano já se estará cogitando a moratória, adotada de fato no ano seguinte.

Mas a briga com a alta de preços seguia sendo o maior problema: são tentados acordos de tabelamentos com empresários, que não os cumprem, são liberadas algumas importações, mas sem resultado: a inflação mensal está na casa de 15% e o descontentamento é geral. As greves crescem em volume e em força, e também os protestos rurais: no RS a 9ª Romaria da Terra reúne 100 mil colonos.

O anúncio do Plano Cruzado, em 28 de fevereiro, foi um choque econômico e político, que deixou eufóricos os aliados do governo e a população e pôs a oposição no impasse, tendo em vista que muitas de suas propostas (congelamento, combate à especulação etc.) estavam sendo adotadas. O PT e Brizola denunciam o artificialismo do Plano e o acusam de causar perdas salariais, porque os preços são congelados pelo seu “pico” (maior valor real), enquanto os salários são convertidos pela média de seis meses, sobre a qual se aplica um abono de 8%. O salário mínimo também tem aumento real, mas acumulava perdas anteriores, que a oposição quer ver repostas. Cria-se um “gatilho” de 20% para os salários, autorizando-se a reposição nas datas-bases da inflação ocorrida depois de fevereiro, mesmo que não acumulasse 20%.

À maneira do Plano Austral, na Argentina, o Cruzado é a primeira tentativa heterodoxa de combate à inflação no Brasil. Nos anos seguintes virão outras, mas sem nenhum sucesso. Os preços são congelados, assim como os salários, eliminam-se a correção monetária e a indexação, as dívidas existentes são recalculadas, para baixo, com base numa tabela de expurgo das projeções inflacionárias (“tablita”) e com isso espera-se o fim da “inércia inflacionária”, que os economistas do governo acreditam ser a fonte maior da inflação. Para cortar a memória da inércia, a moeda é alterada de cruzeiro para cruzado e perde três zeros, e o câmbio fica sem correções automáticas.

Nos primeiros meses, a inflação passa a ser negativa, há uma euforia enorme de consumo e produção, aumentam os investimentos e forma-se um princípio de círculo virtuoso entre produção, emprego, consumo, renda, arrecadação e investimento. Pelo menos essa é a aposta. Muito disso ocorre de fato. Mas há outras questões que não são resolvidas e que rapidamente abrem brechas no plano.

Há problemas nas poucas reservas cambiais, no tamanho da dívida pública, no escasso financiamento externo, nos elevados compromissos internacionais a serem pagos, na defasagem das tarifas públicas e, por fim, na estrutura produtiva e sua capacidade de responder, sem inflação ou desabastecimento, ao quadro novo que o Cruzado inaugura.

Desde o início ocorrem problemas de desabastecimento, que o governo tenta combater com importações, liberação de estoques, confiscos, multas, acordos com empresários etc, mas eles continuam e só desaparecem com a cobrança de ágios ou quando o governo autoriza algum aumento corretivo. A demanda aquecida ao mesmo tempo estrangula a capacidade de oferta e incentiva a alta de preços.

Açougues fecham em SP e outros Estados. Leite em pó e outros alimentos desaparecem. O governo confisca bois nas fazendas e suspende exportações para atender à demanda interna. Prende empresários que cobram ágio. Nada resolve. Começam, então, as restrições ao crédito no consumo e aos consórcios para diminuir um pouco a demanda. Cria-se um empréstimo compulsório sobre combustíveis e veículos. Mas não é feito nenhum ajuste mais duro: Sarney e o PMDB vivem sua glória, há eleições marcadas para novembro, e o sonho da população parece não ter fim.

Em outubro, a inflação é de 1,9%, a maior do Cruzado, que vinha obtendo índices até negativos. O governo faz a primeira desvalorização cambial, mas mantém o congelamento e comemora a divulgação de indicadores de crescimento, emprego, investimento, a euforia nas bolsas de valores. Mesmo com o acúmulo de problemas econômicos.

Em novembro o PMDB elege 26 dos vinte e sete governadores. A Aliança Democrática faz enorme maioria na Assembléia Constituinte e aparenta ter tomado, de vez, a condução do processo de transição democrática. Mas os aumentos de preços e tarifas que são autorizados logo em seguida, chamados de Cruzado II, põem de novo a esquerda e os movimentos sociais na rua, com conflitos em Brasília, greve geral (de sucesso parcial) em dezembro, queda da popularidade de Sarney, volta da inflação e desencanto popular.

As greves, ao longo do Cruzado, geralmente reivindicando as perdas da conversão salarial pela média, têm pouco sucesso efetivo, apesar de ser um momento de alto nível de emprego. Ela ocorrem em vários setores e são numerosas, mas o congelamento de preços e salários e o apoio popular ao Plano impedem que elas se estendam no tempo. A partir de julho, algumas começam a obter alguma reposição e crescem, como no ABC paulista e no interior de SP, onde 50 mil metalúrgicos paralisam as atividades. Em setembro, nova rodada de greves leva o ministro da Justiça, Paulo Brossard, à televisão em rede nacional para condenar as paralisações.

No campo, o governo dá prosseguimento ao seu programa de desapropriações e assentamentos, mas a insatisfação dos sem-terra e a violência dos fazendeiros e da polícia prosseguem causando conflitos, alguns armados. No MA, em maio, o padre Josimo, que apoiava os trabalhadores rurais, é assassinado a tiros. As marchas, invasões e protestos se intensificam, com acusações à União Democrática Ruralista - UDR -, que se manifesta negando o radicalismo e reafirmando a defesa da propriedade.

Politicamente, Sarney vive seu melhor momento popular, embora ainda seja refém do programa e do poder do PMDB. Mas usufrui da popularidade. E avança em outros pontos institucionais: reata relações com Cuba, rompidas desde 1964; e dá curso aos entendimentos com a Argentina para a integração regional. Em julho, assina com Alfonsín 12 protocolos sobre barreiras alfandegárias, comércio etc., e cria comissão bilateral de Estados visando o mercado comum. O presidente Julio Sanguinetti, do Uruguai os visita durante o evento pleiteando participação de seu país. Em dezembro, novo encontro, com mais 20 protocolos entre os dois países e novamente a participação uruguaia.

O fim do Cruzado jogará Sarney de volta ao chão e, no médio prazo, implodirá a Aliança Democrática, o que permitirá ao presidente vir a desfrutar de autonomia governativa. Mas será tarde. A crise o engolirá e ao país nos anos seguintes.


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