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Contexto | 1984

O ano da campanha das diretas e da eleição do candidato de oposição pelo Colégio Eleitoral põe fim ao período do regime militar.
Os comícios pelas eleições diretas para presidente da República levam multidões às ruas, coloridas de amarelo, a cor-símbolo da campanha. As primeiras manifestações reúnem 60 mil pessoas em Curitiba, em janeiro, e dias depois 300 mil em São Paulo. 250 mil pessoas participam do comício de fevereiro, em Belo Horizonte.

As adesões aumentam, incluindo dissidentes governistas. Um grupo de deputados do PDS chega a anunciar que votará favoravelmente à emenda constitucional Dante de Oliveira, que propõe o fim do Colégio Eleitoral e a volta do voto direto para presidente já em 1984.
300 mil pessoas saem em passeata no Rio de Janeiro, em março, e 1 milhão vão à Candelária, em abril.
Em 18 de abril é decretado estado de emergência no Distrito Federal. No dia 24, várias cidades fazem um panelaço. Mas no dia 25, a emenda das diretas é derrotada no Congresso Nacional. Recebe 298 votos, 22 a menos do que os 2/3 exigidos.

Derrubada a emenda das diretas, os governistas movimentam-se para definir o candidato à sucessão presidencial no Colégio Eleitoral. Paulo Maluf, governador de São Paulo, vence a convenção do PDS, apesar de contar com a antipatia de grande parte das lideranças do partido.
1984 se caracteriza, do ponto de vista econômico, pela superação da recessão ocorrida no ano anterior, com taxa de crescimento do PIB de 5,7%, embora, por outro lado, continue a escalada da inflação, que atinge 210%. Apesar do crescimento, há pouco a comemorar. A renda per capita já é significativamente inferior à de 1980 e o produto total pouco difere do daquele ano.
O chamado ajuste externo e a inflação continuam produzindo estragos sobre o nível de vida da população. A perda de poder de compra do salário mínimo, que fora de 8,8% em 1993, se acentua, chegando a 10% em relação ao último ano.
Cresce a compreensão sobre o caráter inercial da inflação e Francisco Lopes propõe o “choque heterodoxo”, que terá que esperar dois anos para ocorrer. As preocupações nessa área são mais que justificadas. A inflação não é apenas alta, mas se acelera. Em termos anualizados, a inflação aponta, no último trimestre, para uma taxa de 250%.

Rapidamente a popularidade do governo, já fortemente abalada, começa a se dizimar, fortalecendo a oposição e incentivando mais dissidências entre os situacionistas.
Face ao novo quadro, os dez governadores de oposição que haviam assinado o manifesto pelas diretas em novembro de 1983 lançam a candidatura de Tancredo Neves (PMDB-MG) para a Presidência pelo Colégio Eleitoral.
Em agosto, quando o Senado regulamenta o Colégio, um ato do PT contra a eleição indireta reúne mil pessoas em São Paulo. Ainda acontecem manifestações em quatro Estados, mas o movimento que ganha as ruas, dando continuidade à campanha das diretas, é de apoio à candidatura indireta de Tancredo Neves. 300 mil pessoas participam do primeiro comício, em Goiânia, no dia 14 de setembro.

Em outubro, o Senado revoga a lei eleitoral que proibia a campanha em rádio e televisão.
A Frente Liberal, dissidência do PDS, rompe com o governo, levando junto políticos como o vice-presidente Aureliano Chaves e o líder do partido, José Sarney, que aceita ser candidato a vice-presidente na chapa de Tancredo Neves. Governadores do PDS seguem o mesmo caminho, mudando a configuração do Colégio Eleitoral.
Quando a mesa do Senado decide pelo voto aberto no Colégio Eleitoral, em dezembro, ganha força a tendência de derrota do candidato na situação, impensável antes da campanha pelas eleições diretas.
Se a mobilização em torno do voto direto em 1984 mostra desejo de participação política, mostra também insatisfação com os rumos da economia e vontade de interferir no governo para alterá-lo. Em 1984, a inflação atinge 223,7% e o PIB cresce 5,4% — mais do que nos anos anteriores, mas não o suficiente para recuperar a economia do país.

A insatisfação com as dificuldades econômicas provoca greves e manifestações, na cidade e no campo. Em abril, param 10 mil metalúrgicos em São José dos Campos (SP) e 200 mil professores da rede pública de São Paulo. Maio registra greves longas: bóias-frias de Goiás, São Paulo e Minas Gerais e dos professores das universidades federais. Em junho, rebelam-se os garimpeiros de Serra Pelada, ameaçados de expulsão.
Acontecem ainda greves na Previdência Social e na Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN. A primeira greve na história da siderúrgica inaugurada por Vargas leva à ocupação da usina. No final de agosto. mil desempregados invadem a sede do Sine (Serviço Nacional de Emprego), em São Paulo.
Em novembro, é a polícia que desaloja os grevistas que ocupam a Aços Villares em São Caetano (SP). Em dezembro, acontece uma greve de 24 horas no Banco do Brasil.
Os conflitos no campo, que vinham crescendo desde o incentivo à exploração de regiões como a Amazônia por grupos estrangeiros, dez anos antes, e recrudesceram com a recessão, incentivam a organização dos trabalhadores, apoiada pela Igreja. O Encontro Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra, em Cascavel (PR), cria em janeiro o MST. Em outubro, 40 mil pessoas participam do Grito do Campo, em Porto Alegre, protestando contra a política agrícola do governo.

1984 também é marcado pela reincidência da assinatura de cartas de intenção ao FMI e seu sistemático descumprimento. Nos primeiros dias do ano o Brasil assina contrato para empréstimo de US$ 6,5 bilhões, cuja primeira parcela é liberada em fevereiro, para saldar compromissos atrasados e fechar a balança de pagamentos de 1983.
Em 16 de março é assinada a quinta carta de intenções, que não será a última. Em 12 de agosto nova missão do FMI comparece para monitorar o cumprimento da 6ª carta.

Na frente externa o saldo da balança comercial — objetivo primordial do governo, expresso no lema “exportar é o que importa” — dobra em relação ao do ano anterior, bate o recorde histórico e atinge pouco mais de US$ 13 bilhões. Esse saldo é crucial para gerar capacidade de pagamento da dívida externa, a grande obsessão do governo.
Apesar do seu tamanho, o superávit é incapaz de reduzir a dívida ou pelo menos seu crescimento: de US$ 81 bilhões no ano anterior, a dívida registrada salta para US$ 91 bilhões, com crescimento superior a 10%.
No final do ano o Brasil terá transferido 4% de seu produto para os credores externos. Embora se acredite que o ajuste externo esteja completado - afinal, o balanço de pagamentos apresenta um pequeno superávit de US$ 700 milhões - o país trilha definitivamente o caminho da década perdida.

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