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Contexto | 1981

1981 é o ano da recessão, com crescimento negativo do PIB pela primeira vez desde que ele começara a ser medido, em 1947. A retração de 4,3% na economia traz como principal conseqüência o desemprego, que atinge 2 milhões de trabalhadores. As áreas mais atingidas são aquelas em que a indústria de bens de consumo durável se instalou e onde se encontram os operários mais organizados.

No ABC paulista, as greves de 1981 deixam em segundo plano a recuperação das perdas salariais provocadas pela inflação e pela política de reajustes limitados implantada pelo governo. Agora, os trabalhadores reivindicam estabilidade no emprego e protestam contra demissões. Na Mercedes-Benz de São Bernardo chega a haver um quebra-quebra quando 5.750 operários são demitidos.

Mas a classe trabalhadora avança em sua reorganização. Em agosto, a primeira Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (Conclat) reúne 5 mil delegados de diversas categorias na Praia Grande (SP) e forma a comissão Pró-CUT. Ali já se manifestam duas tendências no movimento sindical: uma, ligada ao ABC, é mais agressiva nas reivindicações, defende a mobilização dos trabalhadores e aproxima-se do PT; outra, defensora de resultados imediatos e preocupada em frear a mobilização para proteger a abertura política, conta com sindicatos também importantes, como o dos metalúrgicos de São Paulo, e a adesão dos dois partidos comunistas.

Só que a ameaça maior para os trabalhadores, a essa altura, era econômica.
E a economia não passa por bons momentos. O corte de investimentos públicos definido no ano anterior se faz sentir em várias áreas. O Proálcool, criado em 1975, não recebe qualquer financiamento no segundo semestre. O Programa de Óleos Vegetais, pensado como alternativa para o consumo de diesel, sequer tem sua implementação iniciada. As obras de 13 usinas hidrelétricas, com início previsto no ano, são adiadas. O ritmo de implementação do programa nuclear é diminuído e o início de operação das 8 usinas, inicialmente previsto para fins da década, passa a ter como meta o ano 2000.

Se na década passada o endividamento externo crescia pela tomada de novos empréstimos, a situação agora é bastante diferente. As taxas de juros internacionais, por si sós, fazem a dívida crescer exponencialmente. Grande parte da dívida fora contraída com juros flutuantes. Em 1981 o Brasil já é o maior devedor mundial — US$ 68 bilhões de dívida externa bruta — o que equivale a 28% do PIB e a três vezes o valor das exportações anuais.

A subida das taxas de juros logra obter uma expressiva captação de recursos externos da ordem de US$ 18 bilhões, absolutamente imprescindível para cobrir o déficit nas transações correntes. O comportamento da inflação não responde à dramática intensidade do choque e fecha o ano com o índice de 95%, pouco abaixo do observado no ano anterior. Além disso, essa pequena queda foi derivada muito mais do comportamento dos preços agrícolas do que decorrente da recessão.

Muitos economistas avaliam que, no quadro econômico que se consolida, os mecanismos de indexação, amplamente utilizados em todos os setores da economia, impedem que a inflação caia a patamares significativamente menores. Tal interpretação passa a ser conhecida como teoria da “inflação inercial” e tem entre os pioneiros André Lara Resende, Francisco Lopes e Eduardo Modiano.

A crise econômica aumenta, mas a repressão política e o terrorismo da direita persistem, apesar do progresso da abertura. Em janeiro, a Justiça Militar condena três jornalistas com base na Lei de Segurança Nacional. Em março, Lula, que em janeiro realizara viagem internacional em que fora recebido pelo líder polonês Lech Walesa e pelo papa João Paulo II, é enquadrado, com outros oposicionistas, na Lei de Segurança Nacional. Em junho, um Inquérito Policial Militar conclui vexatoriamente a investigação sobre o escândalo do Riocentro: para o IPM, a bomba que explodiu no carro onde estavam dois militares, na porta de um show comemorativo de 1º de maio, não indicaria que eles estivessem preparando um atentado, mas que terroristas quisessem desmoralizar o Exército.

O subseqüente pedido de demissão do chefe do Gabinete Civil, general Golbery do Couto e Silva, é atribuído a esse episódio.

Durante o ano, bombas destroem a rotativa da Tribuna da Imprensa e ameaças de outras explosões, mesmo falsas, suspendem uma sessão do Senado. No Pará, dois padres franceses e 13 posseiros são presos. Conflitos entre posseiros e pistoleiros, e entre posseiros e policiais agitam o sul do estado, deixando mortos e feridos.

Em setembro, o presidente Figueiredo sofre um enfarte e é substituído pelo vice, Aureliano Chaves, até 12 de novembro. Do ponto de vista político, a doença se mostra favorável ao presidente. A população torce pelo seu restabelecimento e ele chega a galvanizar a simpatia popular.

No terreno econômico, em meio à grande crise, o governo também acaba contabilizando alguns itens favoráveis. Na balança comercial, por exemplo, os efeitos da política de contração são bastante positivos e é obtido um surpreendente superávit comercial da ordem de US$ 1 bilhão. A recessão permite a redução das importações, pela queda da demanda interna, e o aumento das exportações, pelo “desvio” de produção para o setor externo.

Os críticos de oposição acusam o governo de promover este superávit à custa da quebra do setor industrial, cuja queda de produção foi de 9%. O governo responde que, completado o ajuste, a economia poderá se recuperar rapidamente, explorando as oportunidades de crescimento abertas com o aumento das exportações.

O balanço final de 1981 é considerado positivo pelo governo, que consegue evitar a necessidade de um acordo com o Fundo Monetário Internacional com a reversão do déficit comercial em superávit e conseqüente aumento da confiança dos investidores internacionais.

Caso tivesse que ser adotada tal iniciativa, a legitimidade política do governo, cada vez mais abalada, poderia ter sido perdida de vez. No entanto, em breve essa conquista se mostrará ilusória.

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